Tudo é incerto e provavelmente nebuloso o tempo todo. Mas as pessoas não enxergam. Que ironia! Talvez ninguém perceba o quão confuso é o tempo - o tempo todo - por falta de tempo. E mesmo que alguém possa abrir a boca muda e arregalar-lhe os olhos para a verdade esta lhe parecerá imunda. Não há meios de interceder na loucura diária alheia. Vive-se, então, com os sentidos omissos, com a cara pintada e omissa. Hoje passo mais tempo em casa, trancada no quarto ou na espera ansiosa de que a casa se aquiete para que eu possa reviver. Dessa forma não preciso acomodar meu rosto numa máscara cotidiana. Se eu sou mais feliz assim? Não há como ser mais feliz assim ou assado. Só existem maneiras de viver. Você escolhe esta ou aquela e decide com qual fica melhor. Mas não mais feliz. São propósitos diferentes que levam ao mesmo ponto. A rotina de viver e viver para morrer. Tentar ser melhor parece uma utopia nos dias de hoje. Quem sabe em mil anos haja outra forma de ser mais feliz. No mais, continuo com a pedra polida do dia-a-dia que se esfarela com o sino do tempo.
Epifanias
[Ler ouvindo Weyes Blood, Agnes Obel] Eu acredito que quando a gente rompe uma barreira na inércia da vida que a gente acha que é real, mas é Maya, quando a gente rompe com esse véu, essa névoa, tudo conspira e no s impulsiona como um vórtice feroz rumo ao nosso centro. E quando entramos em nosso eixo esse turbilhão que somos se alinha em inteireza e potência como partículas que se lembram de si, que como imã se unem. Reintegração. Desfolhamos o que foi, cada folha que brota e sai de dentro de nós extrai todo veneno de tempos vis, obscuros. Florescemos! Finalmente descascamos a película inexistente da ilusão, nos vemos nus. Tudo passa diante dos olhos, porque é o renascer. Vida-morte-vida. Pura vida! Regozijo, perfeição, fluxo perfeito! Um calor toma conta da minha face, meu corpo se desdobra em mil tecidos esvoaçantes, se libertando dos pesos que carreguei. Me perdoo, me compreendo, aceito, agradeço por toda podridão do submundo no qual rastejei tanto tempo. Anjos fragmentados de...
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