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Mostrando postagens de Outubro, 2009
Ela encosta o rosto na almofada macia e fecha os olhos para ouvir com precisão os sons. Sem distrações. Sem distorções. A tensão de cada tecla do piano, como um tendão a vibrar. A imagem composta em sua cabeça de dedos correndo ávidos por sons mutantes, delicados. Som crescente. Música. É como se massageassem seu coração já tão batido feito bife. Segue a linha da lógica e lembra-se de que bifes são temperados após martelados. Há de chegar a hora do sabor - pensa ela. E enquanto isso sonha, sonha o mais alto que pode. E sorri. E chora. Olha para as mãos com dedos finos e compridos. Analisa cada dedo. A cor que escolheu para as unhas, esta semana. Azul! Azul tinta de caneta. Para nunca esquecer que é dos dedos que fluem as palavras e não da ponta da língua. Eles imprimem as letras, impedindo que estas morram na saliva, sem uma nova chance de renascimento. Marcam com o fogo da vida as impressões de cada fagulha de emoção. De cada... Emoção...
Procedimento trata doença pulmonar com anestesia local. Essa era a manchete que eu lia enquanto tentava digerir aquilo tudo. O café frio, a revelação, o frio que travava os dedos das mãos impedindo-os de articular agilmente. Entre uma notícia e outra, náusea. Tontura e calafrios. Não, não poderia estar acontecendo de novo. Não comigo, não da mesma forma. Comecei a acreditar piamente que eu é que causava esse tipo de reação. Ou talvez fosse uma inversão de papéis: o troco por ter agido assim no passado. Mas que culpa tenho eu? Por um lado é completamente claro, fácil de entender, devido às circunstâncias. Por outro, não desce nem com água. Procuro não penetrar profundamente em uma meditação sobre e me enfiar no trabalho. Não dá. Saio para ventilar o pensamento, a massa cinzenta do céu, o ar tão gélido quanto meus sentimentos... Ou quem sabe o estado de choque confundisse minhas sensações – um misto de dor-de-barriga, vontade de chorar e superação constante que triunfava com efeito de f…
Mantenho o rosto voltado para o lado, para o cinza do muro. Falta coragem para encarar o restante da jornada. Fico tensa ao sentir qualquer presença discreta que abala meu mundo durante o sofrer. Desaba uma lágrima roliça e se estira pelo branco do rosto.
Quando foi que se perdeu? Onde foi que me deixou? Para onde partiu a minha boa emoção?
Um mar revolto salga o peito. Ventos cortam os lábios trêmulos e algo mais molesta a mente cansada. Talvez fosse perecível e preferi não acreditar. Ou quem sabe eu houvesse estragado tudo, para variar. Mas eu prometo, dessa vez não há o que rememorar. Não há o que apagar.
É difícil saber quando é real e quando simplesmente se adormece num estado etéreo e pérfido. Dói pensar a respeito. Faz com que levantemos todo tipo de insanidade e a cabeça fica cheia de besteiras inúteis que só fazem sofrer ainda mais. Ficar inerte também não parece ser a melhor opção, mas, de certo, é a mais recomendada. É como morte lenta, daquelas em que o moribundo se contorce e geme mergulhado em sua agonia. Estou cansada de questionar essas desventurosas situações. Cansada demais para qualquer pergunta e então prefiro a letargia. Na verdade não é uma escolha, mas sim um estado em que me deixo ficar facilmente, como que para poupar os resquícios de força que [oxalá] me sobram. Quando passa, tudo toma início novamente.