Como diria Caio Fernando Abreu: “Loucura, eu penso, é sempre um extremo de lucidez. Um limite insuportável”. Se eu pudesse usar óculos escuros para aplacar essa fotofobia, se conseguisse perder meu medo do mundo que gira rápido demais me deixando nauseada, talvez aí pudesse compreender minha missão. Viver sem amarras é pura ilusão quando não se sabe o que está ao redor. Liberdade inventada, comprada em prateleiras de lojas hi-tech. O discurso hippie já não surte efeito, pelo contrário, afunda na neve pesada da avalanche capitalista e se permite viver nessa lascívia. Meus medos já não são suficientemente assustadores, dependo do medo alheio para enlouquecer melhor. Dependo de um pânico maior para aprisionar a depressão e me entender letárgica. Os sons são cada vez mais abafados, distantes e distorcidos. Os tremores e palpitações constantes que antes não me preocupavam, agora me levam ao cardiologista aos vinte e sete anos com pavor de um ataque cardíaco. Justo eu, que adoraria morrer, mesmo não querendo. Tenho sonhos estranhos e pesadelos fantásticos que traem e deixam estática ao acordar minha mente. Levanto quando o sol se põe e me deito antes da aurora. Vivo nas entranhas da noite como alguém que precisa se esconder do mundo lá fora. Ando pelos cantos da casa, me esgueirando. Entre sussurros e murmúrios uma praga ou uma prece. Um sopro desesperado por que tudo chegue ao fim. Não importa de que forma. Sou um grito surdo no escuro, uma sombra torta que ninguém pode perceber. Sou um berro latente no ouvido do descaso. Sou só.
Epifanias
[Ler ouvindo Weyes Blood, Agnes Obel] Eu acredito que quando a gente rompe uma barreira na inércia da vida que a gente acha que é real, mas é Maya, quando a gente rompe com esse véu, essa névoa, tudo conspira e no s impulsiona como um vórtice feroz rumo ao nosso centro. E quando entramos em nosso eixo esse turbilhão que somos se alinha em inteireza e potência como partículas que se lembram de si, que como imã se unem. Reintegração. Desfolhamos o que foi, cada folha que brota e sai de dentro de nós extrai todo veneno de tempos vis, obscuros. Florescemos! Finalmente descascamos a película inexistente da ilusão, nos vemos nus. Tudo passa diante dos olhos, porque é o renascer. Vida-morte-vida. Pura vida! Regozijo, perfeição, fluxo perfeito! Um calor toma conta da minha face, meu corpo se desdobra em mil tecidos esvoaçantes, se libertando dos pesos que carreguei. Me perdoo, me compreendo, aceito, agradeço por toda podridão do submundo no qual rastejei tanto tempo. Anjos fragmentados de...
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