Os dias estão muito nublados. Eu ando pelas ruas como se fosse um espectro maldito. Compro livros que nunca vou ler, filmes que nunca vou assistir. Durmo o dia inteiro e passo as noites insone procurando um sentido pra tudo isso. Lembro dos anos idos de minha infância e a única memória latente é a do medo. As pessoas ficam achando isso ou aquilo de mim, mas não sabem nada. Eu olho no espelho e só vejo aquela menina assustada com quatro, dez ou quinze anos. Refaço cenas em minha cabeça, repasso o filme da minha vida. O que está errado? Como aquelas pessoas conseguem? São burras ou o quê? Por que tudo parece tão caótico, dolorido e inútil? Eu quero, meu Deus, entender como tudo isso se dá. Quero demais.
Epifanias
[Ler ouvindo Weyes Blood, Agnes Obel] Eu acredito que quando a gente rompe uma barreira na inércia da vida que a gente acha que é real, mas é Maya, quando a gente rompe com esse véu, essa névoa, tudo conspira e no s impulsiona como um vórtice feroz rumo ao nosso centro. E quando entramos em nosso eixo esse turbilhão que somos se alinha em inteireza e potência como partículas que se lembram de si, que como imã se unem. Reintegração. Desfolhamos o que foi, cada folha que brota e sai de dentro de nós extrai todo veneno de tempos vis, obscuros. Florescemos! Finalmente descascamos a película inexistente da ilusão, nos vemos nus. Tudo passa diante dos olhos, porque é o renascer. Vida-morte-vida. Pura vida! Regozijo, perfeição, fluxo perfeito! Um calor toma conta da minha face, meu corpo se desdobra em mil tecidos esvoaçantes, se libertando dos pesos que carreguei. Me perdoo, me compreendo, aceito, agradeço por toda podridão do submundo no qual rastejei tanto tempo. Anjos fragmentados de...
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