É, pode crer. Uma hora a gente percebe o frio que faz a falta de alguém que saiba o que te dizer quando você mais precisa. Acho que são umas seis da manhã e não consigo dormir. Não há nenhum contato online, ninguém além de mim e meus pensamentos ao som de roads. É camarada. Não importa o quanto você se supere, não há visibilidade para isso. Não existe nada de você nesse mundo, nenhum fragmento que possa mostrar quem é você. E quando ando por aí penso o que poderia ser mais fácil. Acabar com tudo ou me entregar à ilusão de um mundo capitalista e sem escrúpulos. Ou a ilusão seria minha. Estaria eu chutando as horas ao invés de marchar no compasso deles? Me sinto como música para surdos, obsoleta. Inadequada demais para eles. Às vezes eu posso viver como eles vivem. Passo os dias comuns e corridos, faço coisas aparentemente normais, rio das piadas normais, teço conversas triviais. Contudo, é sempre chegada a hora de despertar para a realidade, minha realidade. É quando tudo parece natural, sabe, aí sinto um soco no peito, uma palpitação. E as verdades me olham com escárnio e cospem no chão ao meu lado. É óbvio que em algum momento elas reaparecem. Ninguém consegue sufocar a verdade por tanto tempo. Mas eu tento. Começo enganando ela e quando se distrai a pego pelo pescoço e aperto aperto bem forte até que a cor suma de meus dedos. Ela fica desacordada por um tempo, sabe. Não é muito, mas já é de serventia pra poder fantasiar um mundo diferente. Aí ela te surpreende, assim, no meio de uma ilusão qualquer e todo o mundo cai novamente. Não consigo definir essa inquietação. Definhar esse medo de viver vivendo. Então passo minhas horas por aí, vagando. Vou para algum lugar com os amigos e largo meu corpo lá fazendo sala enquanto minh’alma vaga por ruas desconhecidas e vidas distraídas. Procuro um porto, uma cais pra sentar e balançar as pernas n’água da esperança. Meu desespero é um fogo contido lento e delicado que estilhaça todas as noites do alto da escada. Por isso não consigo dormir.

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