A chuva lava as lamentações. Lava o apego e o grosseiro desespero. A chuva conta os pingos das lágrimas nas telhas. O dia amanhece cinza e os olhos enevoados de apatia. Tempo. O tempo engana a gente. Pergunto ao meu café: onde foi que me perdi? Onde... foi... que enfiei meus sonhos e desejos. Meus desajeitados anseios? Tenho medo disso. E o medo congela. Então eu corro, corro e, quando paro, tenho a sensação de que corri em vão. E quando a gente corre, corre e o tempo passa e a gente se vê no mesmo lugar, só que mais sozinho? Mais escuro. Fecho os olhos e visualizo o sol que não está lá. Fecho e não quero mais abrir.
Epifanias
[Ler ouvindo Weyes Blood, Agnes Obel] Eu acredito que quando a gente rompe uma barreira na inércia da vida que a gente acha que é real, mas é Maya, quando a gente rompe com esse véu, essa névoa, tudo conspira e no s impulsiona como um vórtice feroz rumo ao nosso centro. E quando entramos em nosso eixo esse turbilhão que somos se alinha em inteireza e potência como partículas que se lembram de si, que como imã se unem. Reintegração. Desfolhamos o que foi, cada folha que brota e sai de dentro de nós extrai todo veneno de tempos vis, obscuros. Florescemos! Finalmente descascamos a película inexistente da ilusão, nos vemos nus. Tudo passa diante dos olhos, porque é o renascer. Vida-morte-vida. Pura vida! Regozijo, perfeição, fluxo perfeito! Um calor toma conta da minha face, meu corpo se desdobra em mil tecidos esvoaçantes, se libertando dos pesos que carreguei. Me perdoo, me compreendo, aceito, agradeço por toda podridão do submundo no qual rastejei tanto tempo. Anjos fragmentados de...
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