Nada do que digo ou faço pode tornar essa sensação menos insuportável. Mas eu ainda posso viver, não é? Não importa quantas coisas me sejam tiradas, arrancadas à flor da vida, eu ainda posso viver. Ainda assim tenho minha presença neste mundo. E se me arrancassem a única coisa que me resta – parca atualmente, confesso – pelo menos eu teria deixado minhas pegadas por algum lugar onde pessoas hão de passar. Fico aqui, calada, trancada nesse estado de letargia. As pessoas não entendem, acham ser besteira, corpo-mole. A verdade é que sou uma criatura da noite e se em quase vinte e sete anos não mudei, não será agora que vou mudar. Queria um veneno antimonotonia, uma cura, um socorro. Mas acho que só eu posso me proporcionar isso. Só não sei como...
Epifanias
[Ler ouvindo Weyes Blood, Agnes Obel] Eu acredito que quando a gente rompe uma barreira na inércia da vida que a gente acha que é real, mas é Maya, quando a gente rompe com esse véu, essa névoa, tudo conspira e no s impulsiona como um vórtice feroz rumo ao nosso centro. E quando entramos em nosso eixo esse turbilhão que somos se alinha em inteireza e potência como partículas que se lembram de si, que como imã se unem. Reintegração. Desfolhamos o que foi, cada folha que brota e sai de dentro de nós extrai todo veneno de tempos vis, obscuros. Florescemos! Finalmente descascamos a película inexistente da ilusão, nos vemos nus. Tudo passa diante dos olhos, porque é o renascer. Vida-morte-vida. Pura vida! Regozijo, perfeição, fluxo perfeito! Um calor toma conta da minha face, meu corpo se desdobra em mil tecidos esvoaçantes, se libertando dos pesos que carreguei. Me perdoo, me compreendo, aceito, agradeço por toda podridão do submundo no qual rastejei tanto tempo. Anjos fragmentados de...
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