Tudo deve ser feito cuidadosamente. Calculado numa rotina especialmente confortável para que nada saia do controle. Como beber água e acompanhar o caminho que ela faz dos lábios até o estômago, descendo fresca e milagrosa como um remédio. Outra é olhar pela fresta da janela o dourado do sol que bate nas folhagens do jardim que quase não se repara ao entrar. Ver como elas brilham e se agitam na brisa gostosa da tarde. Imaginar até uma joaninha, beleza rara de se encontrar no dia-a-dia desta cidade. Tudo isso cadenciado sob uma canção agradável que massageie o coração, já que este encontra-se em coma profundo. Esquecer o passado que se vai com a água corrente e que se foi na corrente das lágrimas. Deixar de lado os rostos que incomodam e apreciar a novidade em sua plenidade, como quem vê a vida pela primeira vez. Digo: não é fácil segurar os medos numa rede até que chegue a hora certa de soltá-los, mas é necessário. Dói vê-los partir, porque um dia fizeram parte de você. Pertenceram a cada fibra do corpo. Hoje, após todos os solavancos, posso gritar que você é um covarde! E se não quer ser feliz por pura idiotice, me tire dessa! Estou mais leve que perfume no ar e não tenho amarras. Eu deixo ser. Permito-me o melhor de tudo, pois acabam de bater à minha porta.
Epifanias
[Ler ouvindo Weyes Blood, Agnes Obel] Eu acredito que quando a gente rompe uma barreira na inércia da vida que a gente acha que é real, mas é Maya, quando a gente rompe com esse véu, essa névoa, tudo conspira e no s impulsiona como um vórtice feroz rumo ao nosso centro. E quando entramos em nosso eixo esse turbilhão que somos se alinha em inteireza e potência como partículas que se lembram de si, que como imã se unem. Reintegração. Desfolhamos o que foi, cada folha que brota e sai de dentro de nós extrai todo veneno de tempos vis, obscuros. Florescemos! Finalmente descascamos a película inexistente da ilusão, nos vemos nus. Tudo passa diante dos olhos, porque é o renascer. Vida-morte-vida. Pura vida! Regozijo, perfeição, fluxo perfeito! Um calor toma conta da minha face, meu corpo se desdobra em mil tecidos esvoaçantes, se libertando dos pesos que carreguei. Me perdoo, me compreendo, aceito, agradeço por toda podridão do submundo no qual rastejei tanto tempo. Anjos fragmentados de...
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