Im-pas-se. Sempre me colocam no meio fio. Ou eu me coloco? Não quero pensar nisso. Se me tocassem nos momentos difíceis, saberiam que estou morta. Se verificassem meus sinais vitais, quando do comportamento atônito, o olhar profundo e distante, saberiam que estou morta. A carne trêmula, alva, posta num vestido vermelho. As faces cheias de incertezas e inquietações, que só alguém muito astuto poderia perceber a ausência na vontade de viver. A tristeza. A irritabilidade por ter que suportar mais um dia entre tantos outros banais e idiotas. Pudera eu chegar lá com um frêmito de vida na ponta dos lábio e soprar as mesmas palavras de Beckett: "Antigamente eu não sabia aonde estava indo, mas eu sabia que ia conseguir, sabia que ia haver um fim na longa estrada cega. Quantas meias-verdades, meu Deus". Eu queria chegar, quero, apesar de tudo e sentir que pelo menos cumpri o mínimo do proposto - suportar o insuportável. No mais, tudo está igual.
Epifanias
[Ler ouvindo Weyes Blood, Agnes Obel] Eu acredito que quando a gente rompe uma barreira na inércia da vida que a gente acha que é real, mas é Maya, quando a gente rompe com esse véu, essa névoa, tudo conspira e no s impulsiona como um vórtice feroz rumo ao nosso centro. E quando entramos em nosso eixo esse turbilhão que somos se alinha em inteireza e potência como partículas que se lembram de si, que como imã se unem. Reintegração. Desfolhamos o que foi, cada folha que brota e sai de dentro de nós extrai todo veneno de tempos vis, obscuros. Florescemos! Finalmente descascamos a película inexistente da ilusão, nos vemos nus. Tudo passa diante dos olhos, porque é o renascer. Vida-morte-vida. Pura vida! Regozijo, perfeição, fluxo perfeito! Um calor toma conta da minha face, meu corpo se desdobra em mil tecidos esvoaçantes, se libertando dos pesos que carreguei. Me perdoo, me compreendo, aceito, agradeço por toda podridão do submundo no qual rastejei tanto tempo. Anjos fragmentados de...
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