Tudo vai se perdendo ao redor. Toda cor, todo som, todo ar. Meu mundo é vazio. Apesar do meu gênio explosivo e de minha verborragia nada palatável... A dor é somente um transeunte atrapalhado, perdido. Uma sombra plácida num corpo inóspito. Já não sei contar minhas tristezas, são tantas... Sei nem por que motivo... Percebe? Minhas frases são perdidas, inacabadas, não se sabe ao certo aonde vão dar. Em que cume de montanha, em que vaga de mar. Se num espirro se perderam, entre as milhares de partículas ou se ficaram presas às pontas dos dedos. Talvez nas unhas, debaixo da camada de verniz carmim. Eu realmente não sei. Verdade que nunca soube... Mas deixo pra lá esses detalhes. Fui ao médico hoje e estou com IVA, infecção das vias aéreas. Uma bactéria transmitida no ar que faz com que eu me sinta com dez doses de gripe de uma só vez. Pois é, antes tudo era virose, depois estresse, agora essa tal de IVA. Qual será a próxima doença da moda? Eu amo São Paulo, mas ela está me matando. Essa cidade abandonou seus habitantes há muito tempo. A única coisa que me interessa por aqui é a riqueza cultural, todos esses museus, bibliotecas e afins. É o que me fascina! Mas pra morar, morar mesmo, já não me serve. Além de todos os problemas, há um agravante: ela possui minhas memórias. E algumas dessas memórias eu prefiro esquecer. É que elas doem. Profundamente.
Epifanias
[Ler ouvindo Weyes Blood, Agnes Obel] Eu acredito que quando a gente rompe uma barreira na inércia da vida que a gente acha que é real, mas é Maya, quando a gente rompe com esse véu, essa névoa, tudo conspira e no s impulsiona como um vórtice feroz rumo ao nosso centro. E quando entramos em nosso eixo esse turbilhão que somos se alinha em inteireza e potência como partículas que se lembram de si, que como imã se unem. Reintegração. Desfolhamos o que foi, cada folha que brota e sai de dentro de nós extrai todo veneno de tempos vis, obscuros. Florescemos! Finalmente descascamos a película inexistente da ilusão, nos vemos nus. Tudo passa diante dos olhos, porque é o renascer. Vida-morte-vida. Pura vida! Regozijo, perfeição, fluxo perfeito! Um calor toma conta da minha face, meu corpo se desdobra em mil tecidos esvoaçantes, se libertando dos pesos que carreguei. Me perdoo, me compreendo, aceito, agradeço por toda podridão do submundo no qual rastejei tanto tempo. Anjos fragmentados de...
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