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Ela encosta o rosto na almofada macia e fecha os olhos para ouvir com precisão os sons. Sem distrações . Sem distorções. A tensão de cada tecla do piano, como um tendão a vibrar. A imagem composta em sua cabeça de dedos correndo ávidos por sons mutantes, delicados. Som crescente. Música. É como se massageassem seu coração já tão batido feito bife. Segue a linha da lógica e lembra-se de que bifes são temperados após martelados. Há de chegar a hora do sabor - pensa ela. E enquanto isso sonha, sonha o mais alto que pode. E sorri. E chora. Olha para as mãos com dedos finos e compridos. Analisa cada dedo. A cor que escolheu para as unhas, esta semana. Azul! Azul tinta de caneta. Para nunca esquecer que é dos dedos que fluem as palavras e não da ponta da língua. Eles imprimem as letras, impedindo que estas morram na saliva, sem uma nova chance de renascimento. Marcam com o fogo da vida as impressões de cada fagulha de emoção. De cada... Emoção...
Procedimento trata doença pulmonar com anestesia local. Essa era a manchete que eu lia enquanto tentava digerir aquilo tudo. O café frio, a revelação, o frio que travava os dedos das mãos impedindo-os de articular agilmente . Entre uma notícia e outra, náusea. Tontura e calafrios. Não, não poderia estar acontecendo de novo. Não comigo, não da mesma forma. Comecei a acreditar piamente que eu é que causava esse tipo de reação . Ou talvez fosse uma inversão de papéis: o troco por ter agido assim no passado. Mas que culpa tenho eu? Por um lado é completamente claro, fácil de entender, devido às circunstâncias . Por outro, não desce nem com água. Procuro não penetrar profundamente em uma meditação sobre e me enfiar no trabalho. Não dá. Saio para ventilar o pensamento, a massa cinzenta do céu, o ar tão gélido quanto meus sentimentos... Ou quem sabe o estado de choque confundisse minhas sensações – um misto de dor-de-barriga, vontade de chorar e superação constante que triunfava com efeito de...
Mantenho o rosto voltado para o lado, para o cinza do muro. Falta coragem para encarar o restante da jornada. Fico tensa ao sentir qualquer presença discreta que abala meu mundo durante o sofrer. Desaba uma lágrima roliça e se estira pelo branco do rosto. Quando foi que se perdeu? Onde foi que me deixou? Para onde partiu a minha boa emoção? Um mar revolto salga o peito. Ventos cortam os lábios trêmulos e algo mais molesta a mente cansada. Talvez fosse perecível e preferi não acreditar. Ou quem sabe eu houvesse estragado tudo, para variar. Mas eu prometo, dessa vez não há o que rememorar. Não há o que apagar.
É difícil saber quando é real e quando simplesmente se adormece num estado etéreo e pérfido. Dói pensar a respeito. Faz com que levantemos todo tipo de insanidade e a cabeça fica cheia de besteiras inúteis que só fazem sofrer ainda mais. Ficar inerte também não parece ser a melhor opção, mas, de certo, é a mais recomendada. É como morte lenta, daquelas em que o moribundo se contorce e geme mergulhado em sua agonia. Estou cansada de questionar essas desventurosas situações. Cansada demais para qualquer pergunta e então prefiro a letargia. Na verdade não é uma escolha, mas sim um estado em que me deixo ficar facilmente, como que para poupar os resquícios de força que [oxalá] me sobram. Quando passa, tudo toma início novamente.
Tristesse Milton Nascimento) Como você pode pedir Pra eu falar do nosso amor Que foi tão forte e ainda é Mas cada um se foi Quanta saudade brilha em mim Se cada sonho é seu Virou história em sua vida Mas prá mim não morreu Lembra, lembra, lembra, cada instante que passou De cada perigo, da audácia do temor Que sobrevivemos que cobrimos de emoção Volta a pensar então Sinto, penso, espero, fico tenso toda vez Que nos encontramos, nos olhamos sem viver Pára de fingir que não sou parte do seu mundo Volta a pensar então Como você pode pedir...
Tento fingir indiferença, mas o rosto se contrai num sorriso, involuntariamente. A lembrança surge na mente como um bálsamo e aquece a manhã chuvosa do lado de fora da sala. Um bip e minhas mão voam antes mesmo que a ansiedade se aperceba de sua existência monótona diante de meus desejos. Brasa. O músculo em brasa palpita feliz. Os dias e as cores parecem mais claros e luminosos. Os sons calmos. Poderia eu embotar os olhos que cintilam para meu próprio bem? Não convém ser tão vivaz diante da atenção alheia...
O Lobo continua uivando de cima da colina. Meu medo se encolhe num abraço apertado e faceiro . Eu tenho medo. Meu corpo tirita e eu reluto, mas ele sabe, ele sente. Não consigo conter a mente sã. Digo e desdigo, contradigo. Quero, não posso. Sinto muito. A solidão me puxa pelos pés novamente e num mundo tão populoso me sinto um grão de areia perdido ao vento. Revolvo meus sentimentos como quem revolve a terra. A semente está lá, mas não se sabe o que vai dar. Novamente a solidão sussurra em meu ouvido e o medo que sinto é fatal. Não consigo deter as lágrimas e os pés trocam passos incertos às voltas com minha sombra. Talvez eu te ame de algum modo que jamais amarei outra pessoa. Não, não por ser o maior amor, mas por ser um grande amor. Dos melhores e mais saudosos. Por ter me feito tanto bem. Mas de que adianta acabar em sofrimento? Subo. Lá do alto vejo o campo verde e quero me jogar naquela grama. Quero me permitir ser feliz ao menos uma vez (eternamente). Eu devia ter aceitado? Dev...