Ela encosta o rosto na almofada macia e fecha os olhos para ouvir com precisão os sons. Sem distrações. Sem distorções. A tensão de cada tecla do piano, como um tendão a vibrar. A imagem composta em sua cabeça de dedos correndo ávidos por sons mutantes, delicados. Som crescente. Música. É como se massageassem seu coração já tão batido feito bife. Segue a linha da lógica e lembra-se de que bifes são temperados após martelados. Há de chegar a hora do sabor - pensa ela. E enquanto isso sonha, sonha o mais alto que pode. E sorri. E chora. Olha para as mãos com dedos finos e compridos. Analisa cada dedo. A cor que escolheu para as unhas, esta semana. Azul! Azul tinta de caneta. Para nunca esquecer que é dos dedos que fluem as palavras e não da ponta da língua. Eles imprimem as letras, impedindo que estas morram na saliva, sem uma nova chance de renascimento. Marcam com o fogo da vida as impressões de cada fagulha de emoção. De cada... Emoção...
Lamento
Eu nunca tenho a dimensão correta das coisas, afetos, pessoas até que ocorra sua ausência. Em minha humanidade, me vejo muitas vezes mais do que gostaria sendo egoista, reclamona, sentindo raiva e outros sentimentos nada nobres. Mas algumas pessoas, afetos, situações, me mostraram inúmeras vezes que também posso e sei ser generosa, amável, amiga, cuidadosa, carinhosa, altruísta. É uma pena que certos sentimentos sejam acessados apenas em momentos de despedidas, em ausências. Nesses momentos, eu sinto a magia da vida que não cabe dentro de mim, que só consigo expressar em lágrimas. Porque eu choro pra tudo... Temo que a vida realmente seja mais curta do que dizem. Eu percebo tudo tão rápido e escorrendo como água em enxurrada. Meu coração chora partidas e ausências. Meu coração lamenta que a vida, muitas vezes, seja tão dura ou nos leve para caminhos tão distantes das pessoas que amamos. Crescer, viver, dói demais! Que a divindade se manifeste em todos os lugares e cure todas...
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