Tudo é incerto e provavelmente nebuloso o tempo todo. Mas as pessoas não enxergam. Que ironia! Talvez ninguém perceba o quão confuso é o tempo - o tempo todo - por falta de tempo. E mesmo que alguém possa abrir a boca muda e arregalar-lhe os olhos para a verdade esta lhe parecerá imunda. Não há meios de interceder na loucura diária alheia. Vive-se, então, com os sentidos omissos , com a cara pintada e omissa. Hoje passo mais tempo em casa, trancada no quarto ou na espera ansiosa de que a casa se aquiete para que eu possa reviver. Dessa forma não preciso acomodar meu rosto numa máscara cotidiana . Se eu sou mais feliz assim? Não há como ser mais feliz assim ou assado. Só existem maneiras de viver. Você escolhe esta ou aquela e decide com qual fica melhor. Mas não mais feliz. São propósitos diferentes que levam ao mesmo ponto. A rotina de viver e viver para morrer. Tentar ser melhor parece uma utopia nos dias de hoje. Quem sabe em mil anos haja outra forma de ser mais feliz. No mais, con...
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Como diria Caio Fernando Abreu: “Loucura, eu penso, é sempre um extremo de lucidez. Um limite insuportável”. Se eu pudesse usar óculos escuros para aplacar essa fotofobia , se conseguisse perder meu medo do mundo que gira rápido demais me deixando nauseada, talvez aí pudesse compreender minha missão. Viver sem amarras é pura ilusão quando não se sabe o que está ao redor. Liberdade inventada, comprada em prateleiras de lojas hi - tech . O discurso hippie já não surte efeito, pelo contrário, afunda na neve pesada da avalanche capitalista e se permite viver nessa lascívia. Meus medos já não são suficientemente assustadores, dependo do medo alheio para enlouquecer melhor. Dependo de um pânico maior para aprisionar a depressão e me entender letárgica . Os sons são cada vez mais abafados, distantes e distorcidos. Os tremores e palpitações constantes que antes não me preocupavam, agora me levam ao cardiologista aos vinte e sete anos com pavor de um ataque cardíaco. Justo eu, que adoraria mor...
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Eu pensei que poderia , mas não. Iria me lamentar depois por ter sido tão triste quando jovem . Iria me condenar. Eu quero , mas não posso . Deixando isso de lado, preciso somar aqui palavras que expressem meus últimos momentos como ser humano não só pensante , como também atuante . Mostrar meu res non verba . Finalmente, como um soco inesperado que surge, saltei do ninho em que me encontrava e pus-me nessa vida ao desvario constante de quem fica à beira do precipício e inclina a cabeca para tentar ver o seu fim . Saltito de um lado para outro sem amarras ou receios . Corro e paraliso como que compassadamente num descompasso certeiro . Me arremesso de costas e sei que a li embaixo haverá alguém de me amparar. Mesmo que seja me próprio eu .
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Os dias estão muito nublados. Eu ando pelas ruas como se fosse um espectro maldito. Compro livros que nunca vou ler, filmes que nunca vou assistir. Durmo o dia inteiro e passo as noites insone procurando um sentido pra tudo isso. Lembro dos anos idos de minha infância e a única memória latente é a do medo. As pessoas ficam achando isso ou aquilo de mim, mas não sabem nada. Eu olho no espelho e só vejo aquela menina assustada com quatro, dez ou quinze anos. Refaço cenas em minha cabeça, repasso o filme da minha vida. O que está errado? Como aquelas pessoas conseguem? São burras ou o quê? Por que tudo parece tão caótico, dolorido e inútil? Eu quero, meu Deus, entender como tudo isso se dá. Quero demais.
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É, pode crer. Uma hora a gente percebe o frio que faz a falta de alguém que saiba o que te dizer quando você mais precisa. Acho que são umas seis da manhã e não consigo dormir. Não há nenhum contato online , ninguém além de mim e meus pensamentos ao som de roads . É camarada. Não importa o quanto você se supere, não há visibilidade para isso. Não existe nada de você nesse mundo, nenhum fragmento que possa mostrar quem é você. E quando ando por aí penso o que poderia ser mais fácil. Acabar com tudo ou me entregar à ilusão de um mundo capitalista e sem escrúpulos. Ou a ilusão seria minha. Estaria eu chutando as horas ao invés de marchar no compasso deles? Me sinto como música para surdos, obsoleta. Inadequada demais para eles. Às vezes eu posso viver como eles vivem. Passo os dias comuns e corridos, faço coisas aparentemente normais, rio das piadas normais, teço conversas triviais. Contudo, é sempre chegada a hora de despertar para a realidade, minha realidade. É quando tudo parece natu...
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Caramba, como é difícil! Quando se consegue algo de bom e tudo se perde nas fraquezas da gente. Minha cabeça dói. Tomo quatro comprimidos e inalo rinosoro pra ver se passa. Sinusite da desgraça! Deixar ler, não deixa, não. Embala o estômago, deixa mareada. Deito. Rolo e não há quem me faça dormir. O corpo dói de ficar na cama. Sofá? Piorou. Levanto e cambaleio. Sinto náuseas. Quero deitar mas lembro que é inútil. Nada concentra, nada apetece. O gosto da língua é imune ao desejo de sentí -lo. Penso em outras coisas. Sacanas . Diverte um pouco, mas logo passa. É que a cabeça pesa demasiado para que se deixe fixar num só ponto. Irritada, me pergunto mais uma vez quando tudo isso vai acabar.
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A chuva lava as lamentações. Lava o apego e o grosseiro desespero. A chuva conta os pingos das lágrimas nas telhas. O dia amanhece cinza e os olhos enevoados de apatia. Tempo. O tempo engana a gente. Pergunto ao meu café: onde foi que me perdi? Onde... foi... que enfiei meus sonhos e desejos. Meus desajeitados anseios? Tenho medo disso. E o medo congela. Então eu corro, corro e, quando paro, tenho a sensação de que corri em vão. E quando a gente corre, corre e o tempo passa e a gente se vê no mesmo lugar, só que mais sozinho? Mais escuro. Fecho os olhos e visualizo o sol que não está lá. Fecho e não quero mais abrir.