Comecei a tremer e os gritos surgiram. Quem não soube me criar ainda me destrói. Por que Deus? Se meu fardo é a loucura, peço perdão e digo que vou lutar. Vou lutar pela sanidade, pelo bem, pelo amor. Minhas armas serão limpas, na medida do possível. Sempre foram! Não dá, não dá pra viver num inferno constante, onde o lodo tenta te engolir toda vez que você se ergue. "Se eu for ali dar a bunda pra trazer dinheiro pra você vou prestar rapidinho." Ela não presta pra nada - foi o que ele disse. Nesse momento está me amaldiçoando. Praxe. Toda palavra da boca do inferno pra boca dele. Toda ingratidão travestida num "cordeiro vitimado". A loucura. Talvez todas as causas mortis da família tenham sido, de certa forma, ela. Eu estou aqui, agora, tranquila com uma mandioca frita não mastigada entalada na garganta. Descer e pegar algo pra beber é inviável. A tristeza, o sangue quente e o risco iminente de que a porta se abra e não haja pra onde fugir... Tudo borbulhando em lembranças parcas de uma vida porca. De quem é a culpa? Será mesmo que há um culpado? Ou todos estávamos marcados para habitar o mesmo caos juntos como forma de aprendizado? Não importa. Ao menos por enquanto. Tento parar minha cabeça. As coisas giram nela mais rápido que a velocidade da luz. Mais rápido que o espancar dos dedos nessas teclas. Felicidade. O que é a felicidade para você? Para alguns é ter o que comer, o que vestir. Para outros, aquisições que enriquecem ainda mais Steve Jobs. Pra mim? É a paz interior. Quando não há gritos nem xingamentos. Quando comer é um ato sagrado e não um suplício ao redor da mesa tumultuada por berros. A paz pra mim é chorar de alegria, de gratidão, não de tristeza profunda, desalento. A paz é quando ele não está. Perdão, meu Deus, mas é assim que me sinto. Paz é ter 5 dias de folga num Carnaval, depois de quase 10 anos trabalhando feito escrava nessa data, e poder descansar em casa. Poder se deixar ficar em casa, já que não se detém um níquel miserável pelos próximos 12 meses, nem mesmo para a condução, e ainda assim ficar na santa paz. Ilusão. Quando ele está a loucura demoníaca se instala e envenena todo ambiente. Confusão. É o que ele traz, é o que ele deixa em nossos corações. Um ego maior que a própria existência. Uma gratidão que não existe. Perturbação. É o que traz esse cursor vacilante quando os sentimentos eclodem em lágrimas e não há tempo de vomitar as palavras. Me engasgo. Mas não morro. Só agonizo, desorientada.
Epifanias
[Ler ouvindo Weyes Blood, Agnes Obel] Eu acredito que quando a gente rompe uma barreira na inércia da vida que a gente acha que é real, mas é Maya, quando a gente rompe com esse véu, essa névoa, tudo conspira e no s impulsiona como um vórtice feroz rumo ao nosso centro. E quando entramos em nosso eixo esse turbilhão que somos se alinha em inteireza e potência como partículas que se lembram de si, que como imã se unem. Reintegração. Desfolhamos o que foi, cada folha que brota e sai de dentro de nós extrai todo veneno de tempos vis, obscuros. Florescemos! Finalmente descascamos a película inexistente da ilusão, nos vemos nus. Tudo passa diante dos olhos, porque é o renascer. Vida-morte-vida. Pura vida! Regozijo, perfeição, fluxo perfeito! Um calor toma conta da minha face, meu corpo se desdobra em mil tecidos esvoaçantes, se libertando dos pesos que carreguei. Me perdoo, me compreendo, aceito, agradeço por toda podridão do submundo no qual rastejei tanto tempo. Anjos fragmentados de...
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