Se eu pudesse inclinar minha cabeça para o alto, de modo que a boca pendesse aberta, tudo sairia num vômito incontido para o céu como a inundar o universo. Todas as coisas, pessoas, lembranças, idéias e sentimentos, tudo que aqui reside, e deve ser lançado ao vento para não mais perturbar. Tudo que corrói por dentro e faz delirar febril durante os sonhos inquietos. A canção da manhã já soa como um réquiem à minha danação. Ao cair da noite o sol me abandona ao gélido e pálido desespero e à angústia de aguardar seu morno retorno. As estrelas já não me fazem companhia como outrora... Ouço Piaf num ritmo socado, sem parar "Padam, Padam, Padam..." enlouquecendo de agonia. As mãos torcem dentro dos bolsos, apertam, espremem, esticam para cima e um suspiro escapa dorido do peito.
Lamento
Eu nunca tenho a dimensão correta das coisas, afetos, pessoas até que ocorra sua ausência. Em minha humanidade, me vejo muitas vezes mais do que gostaria sendo egoista, reclamona, sentindo raiva e outros sentimentos nada nobres. Mas algumas pessoas, afetos, situações, me mostraram inúmeras vezes que também posso e sei ser generosa, amável, amiga, cuidadosa, carinhosa, altruísta. É uma pena que certos sentimentos sejam acessados apenas em momentos de despedidas, em ausências. Nesses momentos, eu sinto a magia da vida que não cabe dentro de mim, que só consigo expressar em lágrimas. Porque eu choro pra tudo... Temo que a vida realmente seja mais curta do que dizem. Eu percebo tudo tão rápido e escorrendo como água em enxurrada. Meu coração chora partidas e ausências. Meu coração lamenta que a vida, muitas vezes, seja tão dura ou nos leve para caminhos tão distantes das pessoas que amamos. Crescer, viver, dói demais! Que a divindade se manifeste em todos os lugares e cure todas...
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