Tudo deve ser feito cuidadosamente. Calculado numa rotina especialmente confortável para que nada saia do controle. Como beber água e acompanhar o caminho que ela faz dos lábios até o estômago, descendo fresca e milagrosa como um remédio. Outra é olhar pela fresta da janela o dourado do sol que bate nas folhagens do jardim que quase não se repara ao entrar. Ver como elas brilham e se agitam na brisa gostosa da tarde. Imaginar até uma joaninha, beleza rara de se encontrar no dia-a-dia desta cidade. Tudo isso cadenciado sob uma canção agradável que massageie o coração, já que este encontra-se em coma profundo. Esquecer o passado que se vai com a água corrente e que se foi na corrente das lágrimas. Deixar de lado os rostos que incomodam e apreciar a novidade em sua plenidade, como quem vê a vida pela primeira vez. Digo: não é fácil segurar os medos numa rede até que chegue a hora certa de soltá-los, mas é necessário. Dói vê-los partir, porque um dia fizeram parte de você. Pertenceram a cada fibra do corpo. Hoje, após todos os solavancos, posso gritar que você é um covarde! E se não quer ser feliz por pura idiotice, me tire dessa! Estou mais leve que perfume no ar e não tenho amarras. Eu deixo ser. Permito-me o melhor de tudo, pois acabam de bater à minha porta.
A arte de colher pedras preciosas
Às vezes precisamos de pessoas assim, que nos façam sentir a frescura do ar e o perfume das flores. De meninas tão leves e doces que venham com pedrinhas nas mãos - dizendo ser preciosas. De um chocalho, umas penas, alegrias e tendas. De colares, colores, olhares, manjares. Eu vi a luz hoje e me encantei como antes. Eu vi o azul da saia e a vida em avenidas e esquinas. Eu vi hoje a placa na rua que dizia "precisa-se de felicidade". E eu não escolhi o caminho da saudade. Nos pés, os chinelos batidos com pedrinhas brilhantes. Na bolsa, toda esperança querendo saltar pelas bordas. Eu vi o verde e meus olhos sentiram a falta da mãe. Do sal d'água que fica na pele e do sol queimando os cabelos na praia aberta. Sinto falta da saia rodada e dos panos enrolados no corpo. Sinto falta d'água na pele e o refresco d'alma. Veio o verão e já era tarde o pó de gelo abandonou os vidros da janela do quarto. Quero meu copo de gelo, com limão por favor.
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