Eu me fecho no quarto e me embriago e fumo e ouço os sons mais tristes pra lacerar a dor e tentar dormir sob o cansaço. Eu canto alto o que na voz dela é mágoa e absurdo, mas acontece, eu garanto. Eu desperdiço tempo e dinheiro por causa de você, garoto. Por que eu não posso te deixar assim, nesse meio de vida louco e poeirento, sem minha mão pra te segurar. E mesmo que você recuse, eu ainda estarei lá, na soleira da porta, te esperando. Te amando. Ainda que te odeie ou sinta pena. Ainda que te ame mais que a mim, às vezes. Nem sempre é assim. Apenas quando tudo cai naquele vórtice e, massivo, o horror se expande em meu peito sofrido. Sei que parece muita tristeza para suportar, mas com você por perto eu sou muito feliz, eu te faço feliz. Se você quiser...
Epifanias
[Ler ouvindo Weyes Blood, Agnes Obel] Eu acredito que quando a gente rompe uma barreira na inércia da vida que a gente acha que é real, mas é Maya, quando a gente rompe com esse véu, essa névoa, tudo conspira e no s impulsiona como um vórtice feroz rumo ao nosso centro. E quando entramos em nosso eixo esse turbilhão que somos se alinha em inteireza e potência como partículas que se lembram de si, que como imã se unem. Reintegração. Desfolhamos o que foi, cada folha que brota e sai de dentro de nós extrai todo veneno de tempos vis, obscuros. Florescemos! Finalmente descascamos a película inexistente da ilusão, nos vemos nus. Tudo passa diante dos olhos, porque é o renascer. Vida-morte-vida. Pura vida! Regozijo, perfeição, fluxo perfeito! Um calor toma conta da minha face, meu corpo se desdobra em mil tecidos esvoaçantes, se libertando dos pesos que carreguei. Me perdoo, me compreendo, aceito, agradeço por toda podridão do submundo no qual rastejei tanto tempo. Anjos fragmentados de...
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