Às vezes precisamos de pessoas assim, que nos façam sentir a frescura do ar e o perfume das flores. De meninas tão leves e doces que venham com pedrinhas nas mãos - dizendo ser preciosas. De um chocalho, umas penas, alegrias e tendas. De colares, colores, olhares, manjares. Eu vi a luz hoje e me encantei como antes. Eu vi o azul da saia e a vida em avenidas e esquinas. Eu vi hoje a placa na rua que dizia "precisa-se de felicidade". E eu não escolhi o caminho da saudade. Nos pés, os chinelos batidos com pedrinhas brilhantes. Na bolsa, toda esperança querendo saltar pelas bordas. Eu vi o verde e meus olhos sentiram a falta da mãe. Do sal d'água que fica na pele e do sol queimando os cabelos na praia aberta. Sinto falta da saia rodada e dos panos enrolados no corpo. Sinto falta d'água na pele e o refresco d'alma. Veio o verão e já era tarde o pó de gelo abandonou os vidros da janela do quarto. Quero meu copo de gelo, com limão por favor.
Um envelope diferente com meu nome escrito à mão acabara de passar por baixo da porta. Não reconheci a letra de imediato, até porque logo fui olhar o remetente. Vinha da Escola do Coração. Fiquei surpresa e feliz ao mesmo tempo, abri apressadamente para saber do que se tratava. Antes mesmo de retirar a carta de dentro do envelope, percebi que estava escrita à mão, como no envelope, no destinatário. Aquele azul bic no papel branco me trouxe uma onda de paz indizível. Como se um pedido de socorro, há muito gritado dentro de mim, tivesse sido atendido. E, então, me dei conta de que era uma carta do meu eu passado para o meu eu futuro. Fiquei muito animada, adoro escrever cartas para mim e deixar no meio de algum livro ou pastas de papéis, para algum dia encontrar e reler. Também tenho o costume de me enviar lembretes eletrônicos programados para dali muito tempo, mas nunca havia me enviado uma carta por correio. É claro que isso aconteceu com ajuda da Escola do Coração, em virtude de um...
A vida se desenrola em acontecimentos inesperados. Esse é o padrão. Tudo aquilo que pode mudar, irá mudar. Porque vida é movimento, como diz meu pai. A vida é essa oscilação constante, de natureza tortuosa, ora caótica, ora tranquila, caminhos ciclicamente intrincados. A morte é linha reta. O maior desafio da vida é a própria vida: tudo não passa de uma apresentação improvisada, sem ensaio, para se aproximar do equilíbrio - esse delicado ponto abstrato pelo qual vivemos e do qual a manutenção é utopia. Quando se pensa estar confortável, a vida vem turbulenta e nos sacode de modo que tudo que voa para o alto cai em lugares e de formas completamente diferentes. Não mais há tempo para memorizar, o tempo todo tudo muda e tudo é novo de novo. E esse eterno desconhecido é a perfeição que alimenta nossa evolução. As contradições ficam por conta do que aprendemos como bom e ruim. Do que entendemos por sucesso, felicidade... O cansaço faz parte e coexiste com a calma, a irritação e a tranquilid...
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