Não há música. O quarto é frio e atravancado de coisas por cima de coisas. Solidão. É quando está rodeado de pessoas e mesmo assim se sente só. Você me disse que eu deveria pensar bem. Que possivelmente me fazia um favor, já que eu achava tudo aquilo. Vim pensando nesses oito meses, e a única conclusão que cheguei é que não se pode lutar contra um fato (considerações jornalísticas aplicam-se muito bem, sim). É o que é. Não posso parar a vida em função disso, mas não há como negá-lo. Então, eu me rendo! Permito-me conviver com isso, já tão além de minhas forças. Tão incrustado em meu corpo, um cheiro que não cessa nunca. Uma sensação inesgotável do ontem, a visão da primeira vez... Aceito meus erros e fraquezas e não espero, nem deixo de esperar mais nada. Simplesmente solto a vida para que ela faça o que bem entender. O meu tempo mudou e hoje eu acordei outra.
A arte de colher pedras preciosas
Às vezes precisamos de pessoas assim, que nos façam sentir a frescura do ar e o perfume das flores. De meninas tão leves e doces que venham com pedrinhas nas mãos - dizendo ser preciosas. De um chocalho, umas penas, alegrias e tendas. De colares, colores, olhares, manjares. Eu vi a luz hoje e me encantei como antes. Eu vi o azul da saia e a vida em avenidas e esquinas. Eu vi hoje a placa na rua que dizia "precisa-se de felicidade". E eu não escolhi o caminho da saudade. Nos pés, os chinelos batidos com pedrinhas brilhantes. Na bolsa, toda esperança querendo saltar pelas bordas. Eu vi o verde e meus olhos sentiram a falta da mãe. Do sal d'água que fica na pele e do sol queimando os cabelos na praia aberta. Sinto falta da saia rodada e dos panos enrolados no corpo. Sinto falta d'água na pele e o refresco d'alma. Veio o verão e já era tarde o pó de gelo abandonou os vidros da janela do quarto. Quero meu copo de gelo, com limão por favor.
Comentários