Há um grande vazio nesta couraça. Oca. Inóspita. No máximo invadida momentaneamente pelo fumarento cigarro que desgastou entre os dedos, há muito pouco, no Vale do Anhangabaú. Esfumaçando os pensamentos que se dispersavam numa angústia inefável e abrasiva. Agora, diante da tela lúcida de um computador, divido meu tempo entre trabalhar e amordaçar a dor. O copo d'água em cima da mesa transpira, faz transpassar seu conteúdo, assim como permito que os nervos aflorem em trêmulos gestos nos dedos e no olhar incontido. A calma que encomendei não chegou e não consigo raciocinar. Um misto de inquietação e incapacidade de dar continuidade ao que quer que seja bloqueia os ouvidos e a sala explodindo em verborrágica onda me incomoda. Mal saem essas letras, misturadas ao suor dos dedos que teimam digitar errado. Um grito mudo ecoa nesse vazio todo. Não vejo a hora de sair e fumar mais um cigarro: minha dispersão.
Lamento
Eu nunca tenho a dimensão correta das coisas, afetos, pessoas até que ocorra sua ausência. Em minha humanidade, me vejo muitas vezes mais do que gostaria sendo egoista, reclamona, sentindo raiva e outros sentimentos nada nobres. Mas algumas pessoas, afetos, situações, me mostraram inúmeras vezes que também posso e sei ser generosa, amável, amiga, cuidadosa, carinhosa, altruísta. É uma pena que certos sentimentos sejam acessados apenas em momentos de despedidas, em ausências. Nesses momentos, eu sinto a magia da vida que não cabe dentro de mim, que só consigo expressar em lágrimas. Porque eu choro pra tudo... Temo que a vida realmente seja mais curta do que dizem. Eu percebo tudo tão rápido e escorrendo como água em enxurrada. Meu coração chora partidas e ausências. Meu coração lamenta que a vida, muitas vezes, seja tão dura ou nos leve para caminhos tão distantes das pessoas que amamos. Crescer, viver, dói demais! Que a divindade se manifeste em todos os lugares e cure todas...
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