Há um grande vazio nesta couraça. Oca. Inóspita. No máximo invadida momentaneamente pelo fumarento cigarro que desgastou entre os dedos, há muito pouco, no Vale do Anhangabaú. Esfumaçando os pensamentos que se dispersavam numa angústia inefável e abrasiva. Agora, diante da tela lúcida de um computador, divido meu tempo entre trabalhar e amordaçar a dor. O copo d'água em cima da mesa transpira, faz transpassar seu conteúdo, assim como permito que os nervos aflorem em trêmulos gestos nos dedos e no olhar incontido. A calma que encomendei não chegou e não consigo raciocinar. Um misto de inquietação e incapacidade de dar continuidade ao que quer que seja bloqueia os ouvidos e a sala explodindo em verborrágica onda me incomoda. Mal saem essas letras, misturadas ao suor dos dedos que teimam digitar errado. Um grito mudo ecoa nesse vazio todo. Não vejo a hora de sair e fumar mais um cigarro: minha dispersão.
A vida se desenrola em acontecimentos inesperados. Esse é o padrão. Tudo aquilo que pode mudar, irá mudar. Porque vida é movimento, como diz meu pai. A vida é essa oscilação constante, de natureza tortuosa, ora caótica, ora tranquila, caminhos ciclicamente intrincados. A morte é linha reta. O maior desafio da vida é a própria vida: tudo não passa de uma apresentação improvisada, sem ensaio, para se aproximar do equilíbrio - esse delicado ponto abstrato pelo qual vivemos e do qual a manutenção é utopia. Quando se pensa estar confortável, a vida vem turbulenta e nos sacode de modo que tudo que voa para o alto cai em lugares e de formas completamente diferentes. Não mais há tempo para memorizar, o tempo todo tudo muda e tudo é novo de novo. E esse eterno desconhecido é a perfeição que alimenta nossa evolução. As contradições ficam por conta do que aprendemos como bom e ruim. Do que entendemos por sucesso, felicidade... O cansaço faz parte e coexiste com a calma, a irritação e a tranquilid...
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