O sol da primavera ilumina o monitor pelas frestas da veneziana. O ar é gelado, porém primaveril. Uma certa sensação começa a subir pelo corpo e cobre o rosto de calor. Vontade imensa de sair correndo para o parque do ibirapuera. No fone, Bush. A música vem com a velocidade da brisa: Letting the cables sleep. O estômago traz a agonia dos vocais e as pernas entram em conflito com a mente que precisa, desesperadamente, entregar tudo no prazo. Hoje não tem trégua. A emoção sobe pelas veias e derrama aquela angústia frenética e sensivelmente explosiva. Pólvora nos olhos. Na boca umas letras misturadas com café forte. Na pele o arrepio constante. Volúpia. Há tempos não sentia o nó esganado na garganta, de quem quer se libertar das amarras da consciência. É tudo comedido; essa mecanização, esse foco. Disfarces para a inquietude, para a dispersão constante. Expiração da mente inundada por você e uns sonhos que não tenho dinheiro para comprar. Silêncio não é o caminho, ele diz na música. Séria constatação. Vê, eu não tenho saída. Minha covardia e o orgulho transbordam pelos olhos e eu sento na beira do cais com os pés balançando n'água. Mas a música me acalma. E acende a percepção. Um animal arisco e farejador, com seu instinto apurado e suas defesas violentas na terra presa nas patas. O coração que não pára de socar o peito, que nunca vai cessar. Eu sou essa mutação cortante e o veneno súbito que penetra na corrente sangüínea. Não há meios de conter. Eu não vou parar de viver. Eu me purifico e me salvo pela dor. Depois, volto pra casa com as botas gastas e é só.
Epifanias
[Ler ouvindo Weyes Blood, Agnes Obel] Eu acredito que quando a gente rompe uma barreira na inércia da vida que a gente acha que é real, mas é Maya, quando a gente rompe com esse véu, essa névoa, tudo conspira e no s impulsiona como um vórtice feroz rumo ao nosso centro. E quando entramos em nosso eixo esse turbilhão que somos se alinha em inteireza e potência como partículas que se lembram de si, que como imã se unem. Reintegração. Desfolhamos o que foi, cada folha que brota e sai de dentro de nós extrai todo veneno de tempos vis, obscuros. Florescemos! Finalmente descascamos a película inexistente da ilusão, nos vemos nus. Tudo passa diante dos olhos, porque é o renascer. Vida-morte-vida. Pura vida! Regozijo, perfeição, fluxo perfeito! Um calor toma conta da minha face, meu corpo se desdobra em mil tecidos esvoaçantes, se libertando dos pesos que carreguei. Me perdoo, me compreendo, aceito, agradeço por toda podridão do submundo no qual rastejei tanto tempo. Anjos fragmentados de...
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